‘Descobri que meu namorado era casado horas após doar meu rim para ele’, diz mexicana



Maria José Lara doou um rim para o namorado e descobriu que foi enganada (Foto: Arquivo Pessoal)

“Conheci o *Mathias em 2016 pelo Facebook. Ele morava em Coatzacoalcos, que fica mais ou menos a duas horas de Acayucan, onde eu vivo, no México e me visitava com frequência. Eu ficava super feliz, pelo menos não precisava ficar viajando para vê-lo, nem gastando com isso. Mathias sempre se propunha a vir me ver. Eu não sabia muito sobre ele, somente o que ele me dizia. Saímos por seis meses e começamos a namorar.

Ficamos à distância por quase um ano, fazíamos planos de casamento. Nossa relação seguia linda, com muita paz e muito amor. Ele se dizia apaixonado por mim. Conheci a mãe e a irmã dele por chamadas de vídeo, de alguma forma isso me dava mais segurança. Quando ele vinha me visitar, a gente saía para todo lugar de mãos dadas, ele me buscava no trabalho, íamos jantar, passear pela cidade. Ele não me escondia de ninguém. Por tudo isso, nunca achei que ele pudesse ter algo escondido em sua vida.

Mathias é um homem bonito, atraente e bastante sedutor. Eu estava apaixonadíssima. Até que ele me disse que estava doente. A princípio, não sabíamos o que era. Fiquei triste e muito preocupada com ele. Me ofereci para ir até sua cidade acompanhá-lo nos exames, mas ele disse que não precisava, que a mãe e a irmã iriam com ele.

Dias depois, saiu o diagnóstico: ele tinha insuficiência renal e necessitava com urgência de um transplante de rim. E como eu estava muito apaixonada por ele, não pensei nem duas vezes, e já me ofereci para doar o rim, caso fôssemos compatíveis.

“Minha família foi contra a doação, mas eu já estava decidida. Não voltaria atrás. Estava disposta a fazer tudo por amor”

Maria José Lara

Tínhamos planos de nos casar, ou seja, para mim, o nosso amor era real, era verdadeiro. Era o que me parecia. A gente se amava, eu sentia isso. Então, lhe falei: ‘meu amor, não se preocupe, não precisa procurar mais um doador, porque eu vou te dar o meu rim. Eu te amo e posso ser a doadora’. Ele comemorou e ficou muito feliz com a minha atitude.

Fiz exames que comprovaram que eu podia ser doadora. Fiquei feliz da vida, porque eu ia dar algo de mim para o meu grande amor e fazer com que ele vivesse mais. Uma semana depois, planejamos a cirurgia, já que o caso dele era de urgência. Minha família foi contra a doação, mas eu já estava decidida. Não voltaria atrás. Estava disposta a fazer tudo por amor.

Fui para a cidade do Mathias. Enquanto os médicos nos explicavam tudo sobre o procedimento, notei que ele já estava um pouco estranho. Acreditava que poderia ser o nervoso pré-cirurgia. Preferi ficar na minha e não falar nada.

Minha cirurgia durou três horas e 20 minutos. A dele foi quase que simultânea. Depois disso, me levaram para um quarto do hospital, onde eu fiquei com a minha ‘sogra’. Ainda estava meio grogue da anestesia quando, de repente, vejo uma mulher entrar no meu quarto. Ela parecia estar muito feliz, com um sorriso de orelha a orelha. ‘Você é um anjo. Muito obrigada. Você salvou a vida do meu marido’, ela me disse. A mãe do Mathias arregalou os olhos e ficou paralisada.

Maria José Lara doou um rim para o namorado e descobriu que foi enganada (Foto: Arquivo Pessoal)
Maria José Lara doou um rim para o namorado e descobriu que foi enganada (Foto: Arquivo Pessoal)

Primeiro, pensei que estava sonhando, por estar ainda meio zonza do efeito da anestesia. Mas consegui entender o que estava acontecendo. Rapidamente, a mãe dele desapareceu do meu quarto, me deixando sozinha com aquela mulher. Minha pressão baixou e tiveram que a estabilizar.

Ninguém da minha família tinha ido me acompanhar. Estava sozinha, e refleti muito sobre o que acabara de acontecer comigo. Eu tinha sido enganada. Quando fiquei um pouco mais calma, soube que a irmã dele estava aguardando no corredor do hospital e pedi que ela entrasse.

Minha ‘cunhada’ tentou disfarçar, disse que a mulher havia errado de quarto e que eu estava tendo alucinações. Eu sabia o que eu tinha ouvido, mas como ela continuava dizendo que eu estava louca e inventando coisas sem o menor sentido, cheguei a me questionar. Será que eu estava mesmo alucinada?

Ainda um tanto angustiada, peguei meu celular e vi que tinha uma mensagem enorme do meu cunhado me agradecendo por eu ter salvado a vida do irmão dele. Aí fiquei um pouco mais tranquila e me acalmei. A família toda dele sabia da minha existência, então eu era realmente sua namorada e estava tudo bem. Acho que no fundo eu quis me enganar, essa é a verdade.

Eu estava sem o meu rim, com uma cicatriz enorme na lateral da minha barriga, mas me orgulhava por ter salvado a vida do meu namorado. Oito dias depois, e a equipe médica do transplante nos falou que Mathias tinha que estar perto do hospital para mantê-lo em supervisão total durante, pelo menos, uns três meses. Como a mãe dele tinha um apartamento próximo, acabei ficando ali alguns dias também, caso desse alguma rejeição no rim. Depois, tive que voltar para minha casa.

Voltei para a minha cidade e notei que as coisas começaram a ficar um pouco estranhas. Ele passou a ficar cada vez mais distante de mim. Parecia que ele já tinha conseguido o que queria e que agora eu já não tinha mais nenhuma importância ou serventia. Foi assim que me senti. Descartada. Quando nos falávamos por telefone, ele estava super grosso, mal respondia às minhas mensagens e eu sem saber o que estava acontecendo: se eu estava louca, se eu seguia anestesiada depois de tanto tempo após a cirurgia, ou se eu queria mesmo me enganar. Como dizem por aí – o pior cego é aquele que não quer enxergar.

“Quando entrei no quarto com ela ao meu lado, Mathias ficou pálido. Ele não conseguia entender por que estávamos nós duas ali, eu e sua esposa”

Maria José Lara

Mathias inventava desculpas para não fazer chamadas de vídeo. Estava sempre cansado ou dormindo devido aos medicamentos que estava tomando. Quando nos falávamos era sempre no mesmo horário: de 15h45 às 16h10, nem um minuto a mais. Foram dois meses assim. Mas decidi descobrir o que estava acontecendo. Assim, fui visitá-lo de surpresa no hospital onde ele ainda estava em observação.

Quando cheguei, me deparei na porta do quarto de Mathias com aquela mesma mulher que esteve no meu quarto no dia da cirurgia. Coincidência ou não, achei tudo ainda mais estranho. Era ela, a mesma mulher que apareceu quando eu estava anestesiada. Dessa vez, já sem o efeito da anestesia, pude observá-la melhor. Ela parecia ter mais idade que eu, era morena, alta, tinha olhos e cabelos escuros. Ela tinha um olhar e um semblante de mulher sofrida.

Me aproximei e disse que ia ver como Mathias estava. Muito simpática, ela me disse para eu entrar e ficar à vontade. Quando entrei no quarto com ela ao meu lado, Mathias ficou pálido, parecia estar em estado de choque. Perguntou o que eu fazia ali. Óbvio, ele não conseguia entender por que estávamos nós duas ali, juntas, eu e sua esposa. Ele não sabia nem para quem olhar.

A mulher o chamou de ‘meu amor’ e disse que estava voltando no almoço, como fazia todos os dias. Foi quando percebi mais uma vez como fui trouxa. Por isso ele só podia falar comigo naquele horário restrito, era quando ela ia almoçar.

Me apresentei para ela: ‘Muito prazer, sou a Maria José, namorada do Mathias’. ‘Como você pode ser a namorada dele se eu sou a esposa?’, ela respondeu. Imediatamente, nós duas olhamos para ele e perguntamos o que estava acontecendo. Mais pálido do que nunca, Mathias parecia estar em estado de choque.

Não fiz barraco, permaneci ‘fina’ na minha. Ela, que parecia incrédula, também não fez nada. Era como se ninguém pudesse ter a coragem de fazer alguma coisa naquele momento. Super sem graça e com vontade de sair dali correndo, dei meia volta e fui embora. Estava arrasada, muito triste e com uma dor imensa no meu coração. Me senti enganada, usada, descartada… Um verdadeiro lixo.

Voltei para a minha cidade sem acreditar em tudo que vivi. Estivemos juntos por quase um ano e nunca pensei que Mathias fosse um homem casado. Nunca suspeitei de nada. Achei que eu era única, prioridade para ele.

“Hoje penso que tudo já devia fazer parte de um plano do Mathias para eu me apaixonar por ele e doar meu rim”

Maria José Lara

Quatro dias depois, voltei ao apartamento da mãe dele para buscar algumas coisas e a casa estava completamente vazia. Ou seja, eu não sabia absolutamente nada sobre este homem. Era como se a terra tivesse engolido ele e toda sua família. Nunca mais soube dele. Tomei nojo desse cara, da mãe, da irmã dele. Um bando de mentirosos.

Minha consciência segue tranquila, porque eu doei meu rim pela minha própria vontade. Ninguém me obrigou a fazer nada. Não faz muito tempo encontrei a irmã dele por acaso nas redes sociais e mandei uma mensagem para ela. Assim que ela viu a mensagem, logo me bloqueou. Hoje penso que tudo já devia fazer parte de um plano do Mathias para eu me apaixonar por ele e doar meu rim.

Agora que já se passaram quase seis anos desde que tudo isso aconteceu, sigo minha vida de forma saudável, tanto de alma quanto no corpo. Penso que não importa o que aconteceu, nem o que ele fez comigo. Só por eu ter salvado uma vida, já valeu toda a aventura que passei. Pelo menos sei que Mathias ficou com um pedacinho de mim dentro dele. Demorou um bom tempo ainda para esquecê-lo de vez. Mas passou. Hoje me sinto liberta e pronta para viver um novo amor, real e de verdade.”

Fonte: Revista Maria Claire

Você pode gostar...