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Feita de células e sem matar animais, carne de laboratório quer revolução




Cultured Meat (Foto: Getty Images)

Publicado originalmente na edição 423 da Revista Globo Rural (Fevereiro/2021)

Enquanto família come frango na varanda, uma ave caminha despreocupada pela grama. Parece utopia, mas é real. Graças à tecnologia, o mundo se aproxima de colocar no prato uma inédita carne livre de abate.

A cena é de um comercial da Eat Just, startup sediada na Califórnia (EUA) que produz carne cultivada – feita em laboratório a partir de células de animais vivos (veja como funciona nas páginas seguintes). A nova indústria já reúne mais de 50 empresas, de 19 países, um terço delas fundadas em 2019, e promete promover uma nova revolução no setor de alimentação.

“Nós domesticamos os animais há cerca de 10 mil anos e, agora, estamos no limiar do que deve ser uma segunda domesticação: a possibilidade de domesticar a célula”, diz Carla Molento, coordenadora do Laboratório de Bem-estar Animal da Universidade Federaldo Paraná (UFPR) e professora de uma pioneira turma de zootecnia celular no Brasil.

Não é preciso abater animais para produzir a carne e a tecnologia reduz drasticamente o uso de terras, água e insumos. Além disso, há a mitigação do impacto ambiental, ao emitir menos gases de efeito estufa, tanto no campo quanto na logística, para levar o produto até as gôndolas e os consumidores.

Outro fator é que, para a carne cultivada, a qualidade da genética importa mais do que a quantidade do rebanho. E o mais impressionante: o uso de biorreatores permite transformar células em carne em apenas três semanas.

“Hoje, é preciso alimentar animais por anos para ter uma pequena porção de carne nobre. Com a cultivada, será possível criá-la em três semanas. É uma mudança disruptiva. Está nascendo uma indústria nova”, afirma Gustavo Guadagnini, diretor executivo do The Good Food Institute (GFI) Brasil.

Primeiro-ministro de Israel prova carne cultivada (Foto: Kobi Gideon/Governo de Israel)
Primeiro-ministro de Israel provou carne cultivada e gostou (Foto: Kobi Gideon/Governo de Israel)

Há sinais claros de que essa tecnologia está cada dia mais perto. Já há carne cultivada feita em laboratório à venda em um restaurante de Cingapura. Em dezembro, o país asiático se tornou o primeiro a regulamentar a produção e a venda do novo produto.



Em Israel, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu provou a carne no mês passado e gostou. “É deliciosa e livre de culpa, consigo sentir a diferença”, disse. “Os esforços do governo são combinados com um grande interesse do setor empresarial, com quase 100 startups e empresas de proteínas alternativas. Isso leva à criação de fundos de pesquisa e inovação, o que deve aumentar ainda mais nos próximos cinco anos”, destaca Alla Voldman, gerente de relações estratégicas do GFI Israel.

O investimento e o interesse são resultado de uma disputa industrial pela capacidade de produzir em escala e com preço competitivo para chegar aos supermercados. Há lançamentos previstos para 2021 e perspectiva de que, em cinco anos, fábricas já estejam funcionando e o produto possa chegar às prateleiras.

Mas, como em toda nova indústria, há desafios a vencer. Diferentemente dos alimentos plant-based, que já estão se popularizando, a carne cultivada está em uma fase mais técnica, de validação de tecnologia.

Uma das consequências disso é a incerteza em relação ao preço. Em 2013, quando o primeiro “hambúrguerde laboratório” surgiu, o investimento foi de quase US$ 300mil. No ano passado, a Eat Just disse ter gastado cerca de US$ 50 para produzir um nugget de frango. Até o fim de 2021, a projeção da holandesa Mosa Meat e da espanhola BioTech Foods é criar um hambúrguer que custe US$ 10.

Fonte: Globo Rural

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